O Brasil ganhou mais de 3 milhões de negócios formalizados em uma década, alcançando 10,5 milhões de CNPJs, um crescimento de 41% entre 2015 e 2025, contra apenas 6% no número de empresas informais, conforme levantamento do Sebrae. A transformação é reflexo de um ambiente mais favorável à formalização e uma disposição dos brasileiros para empreender.
No entanto, existe uma diferença entre abrir uma empresa e construir um negócio. Registrar o CNPJ, encontrar fornecedores, criar um perfil nas redes sociais e colocar um produto à venda são etapas cada vez mais acessíveis. Antes disso, porém, é importante fazer uma análise mais profunda sobre por que esse negócio deveria existir e, principalmente, o que levará o consumidor a escolhê-lo.
A jornada do empreendedor normalmente começa com ele gostando de determinada ideia, identificando uma tendência, conhecendo alguém que está vendendo bem ou encontrando no exterior um produto que ainda não existe no Brasil. O perigo é confundir o entusiasmo inicial com uma oportunidade de mercado.
Uma boa ideia precisa entender a realidade para sobreviver. Segundo dados do IBGE, cerca de 20% das empresas empregadoras morrem no primeiro ano de atividade e 60% não conseguem continuar por mais de cinco anos. Por isso, é fundamental entender demanda, concorrência e custos, além da capacidade de entregar o que a marca promete e principalmente, o diferencial dos seus produtos ou serviços.
O primeiro passo é o empreendedor olhar para o negócio em cinco dimensões. Primeiramente, pensar no conceito para estabelecer o que a empresa pretende ser, para quem existe e como quer se posicionar. Em seguida, o propósito precisa explicar por que aquilo importa e orientar decisões concretas.
Na dimensão da oportunidade, é preciso olhar para fora, analisando tamanho e comportamento do mercado, concorrência, tendências e espaços ainda pouco explorados. Já a proposta de valor precisa responder a uma pergunta simples: por que alguém deveria escolher você? Por fim, é necessário planejar para transformar tudo isso em modelo de negócio, com custos, prioridades, riscos e metas claras.
Essa sequência também ajuda a evitar a armadilha de transformar uma tendência, como uma trend das redes sociais, em estratégia. Ser sustentável, natural, vegano, digital ou usar inteligência artificial pode fazer sentido para determinados negócios. Mas nenhum desses atributos constitui, sozinho, uma vantagem competitiva.
O mesmo vale para a busca por uma ideia inédita. O empreendedor começa convencido de que inventou algo novo e descobre que existem soluções semelhantes. Pode haver espaço para competir por experiência, distribuição, produto, preço, atendimento, tecnologia ou posicionamento. O importante é saber onde está o valor agregado que justifica sua entrada naquele segmento.
Na Vidaá Care, empresa que fundei com a médica-veterinária Nathália Starek, fizemos esse exercício antes de lançar o primeiro produto. Enxergávamos uma transformação na relação entre pessoas e animais de estimação. Ao estudar o mercado, percebemos que havia inúmeras empresas de higiene e beleza, mas praticamente ninguém tratava a pele com foco na saúde e bem-estar, com respeito à fisiologia do pet em primeiro lugar.
Então, em vez de entrar em uma categoria estabelecida disputando espaço com dezenas de marcas, decidimos desenvolver uma proposta específica de skincare animal, seguindo a lógica de etapas, adaptadas de acordo com as necessidades de cada indivíduo, como no skincare humano.
E criar uma categoria nova aumenta a necessidade de planejamento. Foi preciso desenvolver produtos, educar o consumidor, testar linguagem, entender canais, ajustar preço e descobrir quais argumentos realmente geram valor. O negócio deixa de ser apenas o que os fundadores imaginam e começa a ser também aquilo que o mercado entende, experimenta e reconhece.
Por isso, considero que as marcas são um organismo vivo. Nome, logotipo, identidade visual e comunicação são importantes, mas também são apenas a parte visível. A força nasce da coerência entre o que ela promete e o que a empresa consegue entregar. Conforme a empresa cresce, produto, atendimento, experiência, cultura e operação passam a construir essa percepção entre seus consumidores.
O avanço do empreendedorismo formal brasileiro é uma ótima notícia. Mais pessoas estão transformando ideias em empresas. Entretanto, o próximo passo dessa evolução precisa incluir uma reflexão mais qualificada antes da criação de cada novo negócio.
Construir uma marca de valor começa, portanto, muito antes de escolher um nome, desenvolver uma identidade visual ou colocar um produto no mercado. Exige transformar a convicção do empreendedor em uma proposta que faça sentido também para quem está do outro lado, para crescer, se adaptar e permanecer relevante.
