Por Fabiana Bertotti
Há poucos contextos no mundo em que um gesto silencioso pode ser observado, ao mesmo tempo, por bilhões de pessoas. A Copa do Mundo de 2026 é um deles. Com jogos distribuídos entre Canadá, México e Estados Unidos, a FIFA projeta que mais de 6 bilhões de pessoas acompanhem o torneio de alguma forma, enquanto cerca de 5 milhões devem passar pelos estádios ao longo das 104 partidas. É, possivelmente, o maior evento de atenção simultânea do planeta. E, ali, nem tudo se comunica pela fala.
A cobrança de pênalti evidencia isso com precisão. O goleiro amplia sua presença, ocupa o espaço e tenta desestabilizar. O cobrador ajusta o ritmo, altera o passo, sustenta ou disfarça o olhar. Nenhuma palavra é dita, mas há uma negociação em curso. É um duelo psicológico transmitido em tempo real, amplificado por uma audiência global inédita. O corpo argumenta antes da decisão.
Esse jogo de sinais se estende além do gramado. O vestiário é um espaço em que a comunicação pode redefinir rumos, uma vez que, em poucos minutos, líderes reorganizam emoções, alinham estratégias e tentam restaurar a confiança em equipes formadas por diferentes idiomas, culturas e repertórios. Nesse contexto, a Copa funciona como um laboratório de comunicação intercultural sob pressão máxima.
Não é apenas o que se diz, mas como se expressa. Um gesto de incentivo, um silêncio no momento certo e um olhar que sustenta após uma falha são elementos simples que constroem coesão com uma eficácia que discursos elaborados raramente alcançam.
Nas coletivas de imprensa, a dinâmica muda. A fala volta ao centro, mas muitas vezes como mecanismo de contenção. Há quem responda sem responder, quem recorra a fórmulas prontas e quem use o sorriso para deslocar o foco. É uma oratória defensiva, em que cada palavra é medida não só pelo que revela, mas pelo que preserva.
E então vem o gol. A comemoração dificilmente é aleatória. Gestos, trajetos e olhares em direção às câmeras constroem narrativas instantâneas. Do outro lado, o erro exige gestão imediata da própria imagem. Ainda em campo, o jogador precisa reorganizar sua história diante de milhões, ou melhor, bilhões. Não há edição, não há ensaio, mas exposição.
Talvez por isso o estilo de jogo de cada seleção revele também uma forma de expressão. O futebol brasileiro, por exemplo, historicamente se destaca por uma retórica corporal intensa, com dribles que rompem padrões e movimentos que criam sentido no improviso.
Observar a Copa por essa lente amplia o campo de leitura. O jogo deixa de ser apenas disputa e passa a ser também expressão. Ali, vemos como construímos presença, administramos percepções e nos comunicamos quando falar não é possível ou quando pode custar caro.
Fabiana Bertotti é especialista em oratória, referência na capacitação de líderes. Direcionou sua carreira para a formação de comunicadores, com especialização em Cinema e Audiovisual pela PUC-PR e cursos de escrita no Brasil e na Inglaterra. São mais de 20 anos de experiência em palco, mais de 12 livros publicados e atuação em palestras e conferências no Brasil e no exterior